Quando se pensa em literatura dos séculos passados, geralmente surgem nomes de escritores como Dostoievski, Edgard Allan Poe, Dickens, Twain, Tolstói… e, mais especificamente no Brasil, José de Alencar, Machado de Assis, entre outros. Pouco é lembrado, contudo, da rica produção textual de mulheres escritoras. A maioria delas ficou à sombra na história da literatura e por motivos mais que óbvios: a inteligência da mulher não deveria intimidar os homens.

Ao longo dos séculos XVIII e XIX, qualquer opinião própria que a mulher poderia expressar era criticada, pois, na sociedade controlada pelo sexo masculino, a mulher – principalmente aquela que não vinha de uma família abastada – tinha um papel muito limitado que girava em torno de serem boas esposas, cuidadoras do lar e dos filhos, confinadas no ambiente doméstico. O homem era privilegiado absolutamente em tudo (política, social e religiosamente), possuía maior oportunidade de educação e a mulher que ousasse contrariar esses padrões era criticada e considerada imoral. 

Também achava-se que a mulher tinha inteligência inferior e, dentre as atividades intelectuais, a escrita era realizada com “mais primor” pelos homens e suas obras ganhavam maior destaque.

Mas, de fato, houve escritoras que lutaram pelo seu espaço e hoje são reconhecidas por terem ousado e ido contra uma sociedade machista. Nós elencamos cinco autoras nascidas entre os séculos XVIII e XIX, que estavam além do seu tempo e não tiveram medo de expressar suas ideias por meio da escrita. Conheça a seguir.

Essa lista não é um rancking e não contempla toda a história das mulheres autoras, porém, tenta selecionar alguns exemplos da produção textual da mulher naquela época.

1. Olympe de Gouges

(1748–1793)
Origem: Montauban, França.

Olympe de Gouges (ilustrado por Ketryn Alves).

Olympe de Gouges (ilustrado por Ketryn Alves).

Pseudônimo de Marie Gouze, foi uma escritora que publicou vários ensaios e manifestos, principalmente sobre a igualdade dos sexos, não-violência, justiça social, denúncia da escravatura e do racismo e defesa das minorias. Sua obra mais célebre é a Declaração dos direitos da mulher e da cidadã (1791), uma versão crítica da Declaração dos direitos do homem e do cidadão (1789).

Olympe de Gouges defendeu a mulher na vida política, jurídica e social, com o direito ao voto, à cargos de poder e à decisões no casamento e no divórcio. Embora recusada pela Convenção Nacional, a Declaração dos direitos da mulher e da cidadã foi sensação em toda França e também no estrangeiro. Devido as suas novas ideias, Olympe de Gouges foi considerada uma mulher perigosa e insubordinada, sendo guilhotinada a 3 de novembro de 1793.

Curiosidades: Em 2004, Paris homenageou-a com uma praça – Place Olympe de Gouges.

Frase:  “… a mulher tem o direito de subir ao cadafalso; deve igualmente ter o direito de subir à Tribuna…

 

2. Mary Wollstonecraft

(1759–1797)
Origem: Londres, Inglaterra.

Mary Wollstonecraft (por John Opie)

Mary Wollstonecraft (por John Opie)

Ela é considerada uma das precursoras do feminismo, junto de Olympe de Gouges. Mary teve uma infância difícil, mas foi apenas mais tarde que pensou que seus problemas não estavam relacionados à sua família ou ao castigo divino. Muito segura de seus dons intelectuais, a autora entendeu que a sociedade dava privilégios e maiores direitos aos homens e negava educação e autonomia para as mulheres.

Mary se permitiu várias experiências não convencionais para uma dama de sua época. Teve dois romances antes do casamento, foi mãe solteira aos 30 anos, tentou se suicidar duas vezes e fez viagens de negócios para países nórdicos sozinha. Essas experiências renderam alguns livros e ensaios, mas foi durante a Revolução Francesa que lançou sua obra mais célebre, A Vindication of the Rights of Woman (1792).

A autora casou com o escritor Gilbert Imlay, e, após dar à luz a sua segunda filha, morreu dez dias depois vítima de infecções causadas pelo parto. Essa filha se tornaria a famosa escritora Mary Shelley, autora de Frankenstein e outras obras.

Curiosidades: Após a morte de sua esposa, Gilbert Imlay publicou um livro com suas memórias, onde revelou todas as relações amorosas “não ortodoxas” da esposa, o que sujou a imagem de Mary Wollstonecraft por pelo menos um século, passando de “escritora filósofa” para “prostituta” e “indecente”.

Frase: “Não desejo para as mulheres que tenham poder sobre os homens, mas que tenham poder sobre si mesmas”.

 

3. Jane Austen

(1775–1817)
Origem: Hampshire, Inglaterra.

Jane Austen (por Ketryn Alves)

Jane Austen (por Ketryn Alves)

Uma das maiores escritoras da literatura inglesa, Jane Austen retratou a vida das mulheres em uma sociedade provinciana dominada pelos homens, pelas boas aparências e pelos bons costumes. A escritora criou personagens femininas que não tinham medo de expressar sua própria opinião sobre as coisas, inclusive sobre casamento. Austen escrevia de maneira irônica e, pode-se dizer, por meio de uma fingida ignorância da mulher – uma estratégia para sutilmente contornar as ideias machistas da época e se inserir na vida pública.

No fundo, suas histórias buscavam, além do engajamento da mulher, a importância de uma relação de respeito e igualdade entre as pessoas. Após ser recusada por editores, seus primeiros títulos só foram publicados em 1811 e 1813, os que viriam a ser os romances Razão e Sensibilidade e Orgulho e Preconceito, sob o peseudônimo de “by a lady”.

Curiosidades: A partir de 2017, as notas de 10 libras (Banco da Inglaterra) terão o rosto de Jane Austen.

Frase: “Eu não quero que as pessoas sejam muito agradáveis, pois isso me poupa o trabalho de gostar demais delas”.

 

4. Emily Brontë

(1818–1848)
Origem: Yorkshire, Inglaterra.

Emily Bronte (por Ketryn Alves)

Emily Brontë (por Ketryn Alves)

Emily Brontë era tímida e antisocial, mas realizava com prazer e empenho as tarefas domésticas, em especial cozinhar. Era à noite que se dedicava à escrita, principalmente na poesia.

Sua irmã Charlotte descobriu os poemas da irmã e decidiu publicá-los junto com seus próprios trabalhos e os da outra irmã, Anne. Para evitar problemas relacionados à recepção de suas obras, elas escolheram pseudônimo andróginos – Currer, Ellis e Acton Bell (para Charlotte, Emily e Anne). Era uma preocupação não ter a referência de gênero nos seus textos, pois havia um preconceito muito grande com as mulheres e  havia a idea de que as “poetisas” não tinham qualidade literária.

O livro que publicaram juntas não obteve sucesso – foram vendidos apenas dois exemplares, mas as irmãs não desistiram. Posteriormente, publicaram suas próprias obras. Charlotte publicou Jane Eyre (1847), que foi bem sucedido, e Emily, O Morro dos Ventos Uivantes, no mesmo ano, porém, não foi bem compreendido na época por ser sombrio demais e só se tornou um sucesso da literatura inglesa muitos anos depois.

Curiosidades: Mesmo sendo mais conhecida pelo seu único romance, O Morro dos Ventos Uivantes (1847), Emily Brontë teve um respeitável trabalho na poesia, o qual foi reconhecido séculos depois e está entre as grandes produções do cânone ocidental.

Frase: “Entreguei-lhe o meu coração e ele se apoderou dele, destroçou-o e, depois, o devolveu”.

 

5. Maria Firmina dos Reis

(1825–1917)
Origem: São Luiz, Maranhão.

Maria Firmina dos Reis

Maria Firmina dos Reis

Considerada a primeira romancista brasileira, Maria também foi contista, poeta, charadista e compositora de música. Na sua educação e formação, contou com a ajuda do primo, o escritor/educador Sotero dos Reis. Seu livro mais conhecido é Úrsula (1859), que traz críticas a respeito de questões de gênero, raça e classe social, uma vez que fora escrito na perspectiva dos escravos, algo inovador para a época pró-abolicionista que o Brasil estava passando.

Maria – assim como Jane Austen e Emily Brontë – criou um pseudônimo (“Uma Maranhense”) e uma postura de inexperiência (chama seu livro de “mesquinho” e “humilde”) para se infiltrar e ter voz na sociedade patriarcal brasileira.  Em 1887, a autora lança A Escrava, reforçando sua postura antiescravista.

Curiosidades: Maria era mulata e filha bastarda, porém isso não a impediu de ser a “número um” em muitas coisas: a primeira mulher e a primeira afro-brasileira a publicar um romance no Brasil, além de ser a primeira a publicar um livro antiescravista no país. Em 1847, foi aprovada em um concurso público para a Cadeira de Instrução Primária, sendo assim a primeira professora concursada no Maranhão. Ao aposentar-se, fundou, em sua casa, a primeira escola mista e gratuita do Estado.

Frase: “Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e conversação dos homens ilustrados, que aconselham, que discutem e que corrigem, com uma instrução misérrima, apenas conhecendo a língua de seus pais, e pouco lida; o seu cabedal intelectual é quase nulo”.

Sobre as escritoras brasileiras

Optamos por deixar apenas a Maria Firmina dos Reis – essa “ilustre desconhecida” – como referência de autora brasileira devido à todos os seus pioneirismos e, também, porque ela era de uma “província chamada Maranhão, um lugar muito, muito distante” da então capital do Brasil, Rio de Janeiro (considerada o centro da elite cultural de nosso país naquela época), e que, por outro lado, morreu pobre e esquecida (assim como outras), só vindo a ganhar mérito pela sua existência anos depois (historiadores, não nos julguem).

É mais elegante, já justificando, mencionar e atribuir o merecido crédito para várias das mulheres que tiveram uma participação crucial nos campos da literatura e do jornalismo no Brasil dos séculos XIX e XX, dentre elas: Maria Josefa, Albertina Bertha, Ana Luísa Berta, Gilka Machado, Maria Benedita Bormann, Carmen Dolores, Ana Luísa de Azevedo e Castro, Ana Eurídice Eufrosina de Barandas, Presciliana Duarte de Almeida, Narcisa Amália, Júlia Lopes de Almeida, Francisca Júlia, Josefina Álvares Azevedo, Revocata Heloísa de Melo e Julieta de Melo Monteiro.


Bruno Rodrigues

nasceu em Belém do Pará em 1989. É formado em publicidade (UFPA) e mestre em Design de Hipermídia (UFSC). Quando criança, leu muitas HQs e sonhava em ser desenhista. Aos 15 anos resolveu ser escritor. Em 2010 auto publicou seu primeiro romance da série Barbolandia. Fundou a Editora Barbohouse com intuito de publicar histórias de autores estreantes. Trabalha para tornar os livros digitais mais populares e que gerem impacto positivo na vida das pessoas.

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